Os desafios contemporâneos da Medicina do Trabalho estiveram em pauta no 4º Congresso da Associação Médica Brasileira (AMB), em uma sessão dedicada aos impactos do ambiente laboral na saúde física e mental dos trabalhadores.
Coordenada pelos doutores Francisco Cortes Fernandes e Artur Serra Neto, a atividade reuniu especialistas para discutir temas cada vez mais relevantes diante das transformações no mundo do trabalho e do aumento das demandas relacionadas à saúde ocupacional.
Na abertura, Dr. Francisco destacou a importância de médicos de diferentes especialidades se manterem atualizados sobre os avanços e desafios da Medicina do Trabalho. Segundo ele, a especialidade ocupa atualmente a sétima posição entre as especialidades médicas no Brasil e a sexta colocação em número de candidatos à residência médica.
Dr. Artur Serra Neto ressaltou que o debate realizado durante o Congresso da AMB é fundamental para a renovação da especialidade. “Os desafios que antes estavam concentrados principalmente em LER/DORT hoje se ampliam para questões relacionadas à saúde mental e aos transtornos psiquiátricos, exigindo novos olhares e estratégias de atuação”, observou.
A primeira palestra, “Distúrbios mentais relacionados ao trabalho”, foi ministrada pelo Dr. Eduardo Costa Sá. O especialista apresentou uma análise dos fatores ocupacionais associados ao adoecimento psíquico e discutiu os desafios para o diagnóstico, a prevenção e o acompanhamento de trabalhadores afetados por condições como ansiedade, depressão e síndrome de burnout.
“Todo médico do trabalho precisa saber prevenir doenças e promover saúde”, afirmou. Segundo ele, a especialidade estuda mais de 50 tipos de riscos ocupacionais, incluindo agentes físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e psicossociais.
O palestrante destacou ainda que, embora a Medicina do Trabalho seja uma especialidade relativamente recente no Brasil, a preocupação entre trabalho e saúde remonta à Antiguidade. “A história moderna da Medicina do Trabalho passa a ser contada a partir da Revolução Industrial. As legislações começaram a surgir no final do século XIX, quando muitos trabalhadores exerciam suas atividades sem qualquer proteção legal”, explicou.
Dr. Eduardo também lembrou que, em 2023, o Ministério da Saúde atualizou a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT), ampliando o reconhecimento de agravos associados às atividades laborais. Durante a apresentação, destacou a relevância do trabalho na construção da identidade e da vida social dos indivíduos, citando os estudos do psiquiatra francês Christophe Dejours sobre o descompasso entre o trabalho prescrito e o trabalho real.
Outro ponto abordado foi a classificação de Schilling, adotada pelo Ministério da Saúde para estabelecer a relação entre doenças e atividade profissional. “Para um diagnóstico adequado, é necessário analisar tanto as características do trabalho quanto as condições individuais do trabalhador”, enfatizou.
Na sequência, a Dra. Paula Cristina Moreira apresentou a conferência “A saúde dos trabalhadores de hospitais”, abordando os riscos ocupacionais enfrentados pelos profissionais que atuam em serviços de saúde.
A especialista destacou a exposição constante a agentes biológicos, a sobrecarga física e emocional, as jornadas prolongadas e outros fatores que impactam diretamente a qualidade de vida e o desempenho desses trabalhadores.
“Os profissionais dos hospitais salvam vidas diariamente, mas muitas vezes têm sua própria saúde consumida silenciosamente”, afirmou. Segundo ela, existe um amplo ecossistema de riscos que, se não for adequadamente monitorado e prevenido, pode levar ao adoecimento dos trabalhadores.
Dra. Paula ainda ressaltou que muitos profissionais de saúde deixam de perceber os sinais de desgaste físico e emocional. Dados apresentados durante a palestra indicam que profissionais da saúde apresentam índices de burnout aproximadamente duas vezes maiores do que os observados na população geral. “Trabalhamos diariamente com sofrimento, dor e luto”, destacou.
Entre os principais acidentes registrados entre trabalhadores de hospitais, foram citados os relacionados à exposição a material biológico, quedas, cortes, contusões, violência ocupacional e acidentes de trajeto. Já entre os agravos mais frequentes estão LER/DORT, transtornos mentais, privação crônica de sono, dermatites ocupacionais e infecções, incluindo a COVID-19.
A palestrante também chamou atenção para o impacto das mudanças nas relações interpessoais e na comunicação dentro dos ambientes de trabalho. Segundo ela, a redução da comunicação não-verbal pode comprometer aspectos fundamentais como empatia, confiança e vínculo entre profissionais e equipes.
Ao final da apresentação, defendeu que investir em saúde ocupacional não é apenas uma obrigação ética, mas também uma estratégia inteligente para as organizações. “O adoecimento dos trabalhadores é uma tendência mundial. Investir em saúde é uma decisão lógica, inteligente e economicamente sustentável”, afirmou.
Em seguida, Dra. Paula Cristina retornou ao palco para ministrar a palestra “O trabalho pode adoecer”, ampliando a discussão para além dos profissionais da saúde. “O trabalho é uma atividade física e/ou intelectual realizada para alcançar um objetivo. Se o trabalhador entra saudável e sai adoecido, é sinal de que algo está errado e que medidas de vigilância e correção precisam ser adotadas”, afirmou.
A apresentação trouxe reflexões sobre a influência das condições laborais na saúde dos indivíduos, os mecanismos de prevenção de agravos e a importância da construção de ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e sustentáveis.
A especialista reforçou ainda a importância da vigilância e da notificação dos agravos relacionados ao trabalho. “Precisamos notificar. Trabalhador saudável não é gentileza; é resultado prevenção efetiva”, concluiu.
Encerrando a sessão, Dr. Francisco destacou dados do SmartLab sobre o crescimento dos registros de câncer ocupacional no Brasil. Segundo ele, há cerca de 15 anos praticamente não havia notificações da doença relacionadas ao trabalho, enquanto atualmente são registrados aproximadamente 16 mil casos, incluindo situações como o câncer de pele associado à exposição solar ocupacional, por exemplo.
“São agravos que podem ser prevenidos com medidas simples, como fornecimento de protetor solar, equipamentos de proteção e ações permanentes de conscientização”, ressaltou.
A sessão foi encerrada com um debate entre palestrantes e participantes, promovendo a troca de experiências e a discussão de estratégias para enfrentar os desafios atuais da saúde ocupacional no Brasil.
Ao incluir a Medicina do Trabalho em sua programação científica, o 4º Congresso da AMB reforça a importância da prevenção, da promoção da saúde e da construção de ambientes laborais mais seguros, contribuindo para a valorização dos trabalhadores e para a melhoria dos indicadores de saúde da população economicamente ativa.


