Narrativas de marketing e falta de evidências científicas são marcas da cannabis medicinal, diz presidente da ABP

4º CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA GERAL

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Quando você pesquisa o uso do termo “medicinal”, por vezes, encontra na história recente exemplos de substâncias nocivas que chegaram a ter supostos benefícios respaldados por conhecimento médico.

Assim foi com o cigarro, em meados do século 20, quando alguns profissionais sustentaram que a fumaça era boa para a saúde, porque era uma substância “quente”. Nos primórdios da televisão, havia até apresentadores de telejornais que narravam as notícias fumando.

Também no passado, um fortificante chamado Biotônico Fontoura foi tido como “medicinal”, porque tinha álcool em sua composição, o que segundo médicos da época era bom para crianças.

Com essas histórias, o psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), abriu sua palestra sobre cannabis medicinal nesta sexta-feira (12), segundo dia de trabalhos do 4º Congresso de Medicina Geral da Associação Médica Brasileira (AMB), realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo.

Segundo Silva, algo semelhante ao cigarro e ao fortificante acontece atualmente com a explosão do interesse da sociedade pela cannabis medicinal. E o denominador comum entre todos esses casos é que interesses empresariais impulsionados por ações de marketing acabam falando mais alto do que as evidências científicas.

No caso da cannabis medicinal, Silva afirma que “não há evidência robusta, mas existe muita evidência de que não há evidência para uso psiquiátrico”. O médico faz referência a avaliações da Anvisa, que dão conta de que o canabidiol ou CDB, que é o óleo derivado da maconha, “não é medicamento, não tem indicação para nenhuma doença mental, não pode ser chamado como tal, e toda responsabilidade sobre o produto é do médico”.

“Temos de obedecer a norma da Anvisa”, diz o presidente da ABP, que identifica na popularização da cannabis “um ativismo muito grande, além de processos judiciais para liberação e desinformação”. Como prova disso, ele lembra que uma empresa de cannabis chamada Praetorian Global aumentou o preço de suas ações em 135 mil por cento com as narrativas baseadas em supostas evidências científicas do produto.

O psiquiatra coloca ainda em questão até mesmo os benefícios da cannabis para os pacientes de quimioterapia, uma área que é respaldada por um certo consenso. “Prescreve-se demais, mas sem evidências. Não se justifica a cannabis para a quimioterapia por causa dos efeitos adversos. E os benefícios, nesses casos, são modestos”, conclui. 

A Anvisa reconhece evidências fortes e consistentes da cannabis, por meio do CDB, apenas para a epilepsia refratária, com estudos clínicos robustos que mostram alívio em convulsões, e para a espasticidade na esclerose múltipla, com o CDB e THC para reduzir a rigidez muscular crônica e os espasmos.

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